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Biografia

crato_ ce_ 1929-2017

Escultor, gravador e desenhista, Sérvulo Esmeraldo iniciou-se profissionalmente no final da década de 1940, frequentando o ateliê livre da Sociedade Cearense de Artes Plásticas (Scap), em Fortaleza. Transferiu-se para São Paulo em 1951. O trabalho temporário na Empresa Brasileira de Engenharia (EBE) nutriu seu interesse pela matemática e repercutiu em seu futuro: em 1957, trabalhando como xilógrafo e ilustrador do Correio Paulistano, expôs individualmente no Museu de Arte Moderna de São Paulo uma coleção de gravuras de natureza geométrica construtiva. O refinamento do seu trabalho foi decisivo para a obtenção da bolsa de estudos do governo francês que o levou, no mesmo ano, para uma longa estada na França.

Em Paris, frequentou o ateliê de litogravura da École Nationale des Beaux-Arts e estudou com Johnny Friedlaender. Na década de 1960 dedicou-se à projetos movidos a motores, ímãs e eletroímãs. Utilizando-se apenas da magia da eletricidade estática chegou à série de Excitables, trabalho que o particularizou na arte cinética internacional. Em 1977 iniciou o retorno à terra natal, trabalhando em projetos de arte pública que incluíam esculturas monumentais na paisagem urbana de Fortaleza, cidade para onde se mudou em 1980 e que hoje abriga cerca de quarenta obras de sua autoria. Foi o idealizador e curador da Exposição Internacional de Esculturas Efêmeras (Fortaleza, 1986 e 1991). Com diversas exposições realizadas e participação em importantes salões, bienais e outras mostras coletivas na Europa e nas Américas (Realité Nouvelle, Salon de Mai, Bienale de Paris, Trienal de Milão, Bienal Internacional de São Paulo, entre outras), sua obra está representada nos principais museus do país e em coleções públicas e privadas do Brasil e exterior. Em 2011, a Pinacoteca do Estado organizou importante retrospectiva da obra do artista. Em 2012, a Galeria Raquel Arnaud que o representa desde 2009, apresentou um recorte de seu trabalho na exposição “Simples como um triângulo”. Lançou os livros A linha e a luz e É pericoloso spogersi em 2015, mesmo ano em que voltou à Galeria Raquel Arnaud com a mostra “Traço volume espaço”.

currículo

Exposições

Textos

A importância de uma exposição na trajetória de um artista não é apenas a de reafirmar a sua presença e a continuidade de sua produção junto ao circuito a que ele pertence mas, especialmente, a de nos oferecer meios para reavaliar a extensão do seu trabalho, sua complexidade e suas ramificações.

Além de sua produção no campo da gravura e da escultura, particularmente aquela de escala monumental, a obra de Sérvulo Esmeraldo também se revela na criação de livros de artista, livros-objeto, esculturas cinéticas e pela sua atuação como agente cultural responsável por iniciativas curatoriais na cidade de Fortaleza. Essa exposição representa mais uma oportunidade de aproximação de uma obra pioneira em diversos aspectos e singular em sua abrangência, de uma produção rica e plural.

Em meados dos anos 80 o artista Eduardo Kac publicou um mapeamento cronoló¬gico das grandes vertentes e dos afluentes experimentais de uma arte de inspiração científica e tecnológica produzida no Brasil1. Por ele podemos notar o quanto o trabalho de Abraham Palatnik figurava de forma isolada no início dos anos 60. Mas para nossa surpresa a retrospectiva de Sérvulo Esmeraldo realizada em São Paulo no ano passado, apresen¬tava um objeto cinético intitulado O Escriba, uma caixa-dispositivo de 1962 onde diversas agulhas são movimentadas pela ação de forças magnéticas invisíveis, confe¬rindo a esse objeto uma performatividade única na produção artística brasileira da época.

Quando trabalhava como professor da Bauhaus, o artista húngaro Moholy-Nagy publicou um estudo intitulado “Os cinco estágios de evolução da escultura do ponto de vista do tratamento dos materiais”2, no qual ele afirmava que a evolução da escultura podia ser sintetizada da seguinte forma: do tratamento estático da massa ao movimen-to. No seu estágio mais avançado, o artista definia que a escultura cinética seria responsável não só pela inclusão do movimento real (e não mais representado) na dimensão da obra de arte, como também pela criação de “volumes virtuais” derivados desse cinetismo. A partir daí a escultura seria entendida como “o ponto médio entre o volume material e o volume virtual, entre a compreensão táctil e a compreensão visual da matéria”.

Neste contexto os Excitáveis de Sérvulo Esmeraldo, esculturas acionadas pelo espectador que estimula os elementos internos da obra pelo atrito estático, marcam a contribui¬ção desse artista ao movimento internacional da arte cinética por sua singulari¬dade e invenção, pela ausência de um motor elétrico como fonte de movimento repetitivo e regular. Nos Excitáveis “o corpo é o motor da obra”. Tal como O Escriba, eles são evidências artísticas de que os fenômenos que ocorrem no mundo físico têm a sua origem num mundo de dinâmica invisível. Ou como afirmou o artista, “(…) não posso evitar de pensar nas forças invisíveis que, por minha intervenção, foram de uma maneira ou de outra, alteradas.”3 Sérvulo adota uma “atitude artística diante da ciência” quando pesquisa e trabalha com a energia latente dos fluídos imponderáveis, com o magnetismo, ou ainda quando projeta criar um arco-íris com água espargida na região central de sua cidade. Seus Teoremas, esculturas lineares sem o relevo real, são construções geométricas que não se limitam apenas aos contornos de seu traçado material feito em aço, mas também se expandem pelo ambiente na forma de suas sombras. Com elas o lugar em que o trabalho se instala é delineado por linhas que atuam como extensões desmaterializadas da peça no ambiente. Volumes virtuais.