carlos zilio _ Fragmentos

15 DE JUNHO - 17 DE AGOSTO 2019

A querela do Brasil, 1979, acrilica sobre tela, 150 x 87 x 5,5  cm

Este conjunto de pinturas demarca o momento no qual decidi optar pela pintura como o suporte principal da minha atividade artística.

Após um início vinculado à chamada Nova Figuração Brasileira, na segunda metade dos anos 60, e depois com uma produção relacionada à arte conceitual nos anos 70, há um intervalo de 1976 a 1980, quando resido em Paris e enfrento um questionamento sobre a História da Arte e a sua relação com a pintura. Para mim, nesse período, a tradição era algo a ser recusado diante da tábula rasa que a arte de vanguarda demandava para a constituição do novo. Minhas experiências vividas nessa fase, bem como o crescente olhar crítico sobre o sentido evolucionista e mecanicista desta concepção de vanguarda, me fizeram rever referenciais sobre arte, passando a privilegiar a pintura como uma prática capaz de estabelecer um vínculo entre a História e o presente, indo no sentido oposto da crença, tão divulgada naquele momento, da morte da pintura. A partir de 1978 a pintura passou a ser o objeto de minha produção artística.

Realizados entre 1978 e 1986, estes trabalhos expõem a gênese do processo. Tratam de estabelecer as bases sobre as quais seria possível erguer uma prática pictórica, buscando enfrentar questões culturais e de linguagem de modo a formular uma linguagem original. Desde o início estabeleci um programa que se baseia na ideia de pintar a pintura. Quer dizer, enfrentar questões culturais e de linguagem diretamente envolvidas com o fazer pictórico, de modo a gerar nesse embate uma resposta original.


A cor é necessariamente uma destas questões, mas igualmente a indagação sobre o formato da tela, a densidade da tinta e a maneira pela qual ela impregna o suporte. A tela A querela do Brasil busca definir os recursos básicos para a pintura: a demarcação do plano, a colagem e a superfície cromática. Tico-Tico no Fubá é arqueologia da pintura com a malha ortogonal delimitada, bem como a linha, o ponto e a curva na definição do espaço. Delírio de Thales atua como uma outra possibilidade da geometria, como se o plano e a reta fossem transgredidos por curvas cromáticas que anulam os limites da tela numa continuidade incessante. Submerso explora o extremo oposto e exacerba todos os elementos da pintura por meio da evidência da paisagem (no caso as vitórias régias, um tema caro a Guignard). Dia após dia e A queda do tamanduá (motivo que retomei nos últimos dez anos) atuam pelo apagamento da paisagem preparando o terreno para um longo período de abstração que se iniciaria pouco depois.  

Formam, desta maneira, estas telas, uma síntese dos primeiros passos de um já longo processo pictórico demarcado pela circunscrição e análise de determinadas questões formais que, uma vez esgotadas, procuram estabelecer novas questões e outros desafios de modo a estabelecer um permanente ato pictórico.

Carlos Zilio