Cassio Michalany – Espaços da cor

28/08/2012 a 11/10/2012

Cassio Michalany – Espaços da cor

JUSTAS POSIÇÕES

O trabalho de Cassio Michalany dá a ver, por meio de repetições, possibilidades de mudança e alteridade. Em cada exposição, em cada conjunto de pinturas, há sempre um tanto de regularidade, na sucessão de coisas com aspectos idênticos, e outro de inter- mitência, em que se revelam as comutações e as diferenças de comportamento das unidades nas diversas combinatórias. Que seja assim há cerca de 30 anos, com uma economia estrita de recursos e procedimentos, diz muito do caráter austero da obra. Mas também sublinha o engajamento, com o sentido de empenho ético, na produção de formas simples e diretas, cujo fundamento está na superfície, na extensão uniforme de cores que salteiam o espaço à vontade, em ordenações voláteis e sem pleitear no- vidade, enquanto instituem condições de individuação. Até que repetir seja passar de um ponto notável a outro.
Apesar da franqueza, o trabalho não se deixa apreender numa tacada apenas, ou de um único ponto de vista. A pintura opera por multiplicações e com mobilidade ao assumir o modo de estru- turas seriais, compostas, uma a uma, por dois ou mais elementos monocromáticos e autônomos, a fim de travar relações, ou me- lhor, de abrir as relações entre as partes, à medida que o conjunto se distribui numa sala. Recomenda-se, por isso, um olhar que seja concentrado, atento a sutilezas, e descentrado, ligado no en- torno, a uma só vez. Afinal não existe nada aqui além dessas áreas de cor, organizadas em modulações de suposta monotonia, senão o que realizam juntas, jamais por efeito óptico, somente na sus- tentação de equilíbrios assimétricos, em sua totalidade regrados e variáveis, logo desconcertantes daquelas primeiras impressões.
Então, afora os cálculos precisos, as padronizações e o raciocí- nio sequencial, o que fica de matemático nisso, já que a ordem 1. dos fatores altera, sim, o produto? Ora, o trabalho estabelece o
rigor do método, mas quer ainda a palpitação de seu sistema. Daí a distensão dos vínculos, o deslizamento das posições, as apro- ximações volúveis, como se as cores emprestassem lugar umas às outras, como se testassem junções, avizinhamentos, dentre tantos possíveis. O jogo de permutações repõe, assim, a singulari- zação de cada parte – pelo fato de as cores (delimitadas, pintadas em separado) se pronunciarem de maneiras distintas, de acordo com a situação em que se encontram – e conquista, assim, a singularização das estruturas – pois, de saída, o processo evita a generalidade, longe de (considerar a hipótese de) esgotar as alternativas de combinação.
Por fim, essas superfícies homogêneas e em série são manu- faturadas demais, desde a pintura até a montagem dos painéis, para serem confundidas com o resultado de uma produção indus- trial. O que tampouco quer dizer que são a expressão de uma ex- periência subjetiva, ao contrário. A aparência anônima do traba- lho é correspondente ao mero preenchimento de extensões de tela e madeira com tinta – está mais para ocupação de oficina do que para engenho de pincelada. As cores também são impessoais, não chegam a constituir uma ‘paleta de pintor’; podem tanto vir da depuração de misturas definidas pelo artista, como vir prontas de catálogos comerciais. Seja como for, igualmente importantes ou, de modo inverso, igualmente desimportantes, apresentam-se nessas pinturas sem hierarquizar nada nem atender a significa- ções e classificações (ou quentes ou frias ou complementares) que lhes poderiam ser atribuídas com base nos sistemas de cores. Porque as estruturas de Cassio Michalany se afirmam como fato físico, sem retórica. E o que se espalha pelo ambiente onde estão é um silêncio vibrante, ressonância, talvez, da justaposição de uma coisa à outra.

JOSÉ AUGUSTO RIBEIRO