LUZ E SOMBRA

01/04/2013 a 25/05/2013

LUZ E SOMBRA

A oposição entre luz e sombra é a percepção mais primordial do ser humano. Toda criança quando nasce enxerga fundamentalmente o contraste entre luz e sombra. E só ao longo dos primeiros meses de vida que a criança passa a se interessar por outras cores, em geral, as mais fortes e vibrantes. Talvez por serem tão primordiais, luz e sombra foram metáforas para a razão e a ignorância. A luz sempre esteve ligada ao conhecimento, ao saber, daí os termos iluminismo e esclarecimento. E a sombra foi associada ao erro, às trevas, a ilusão, campo da confusão, daí o mundo das sombras da alegoria platônica da caverna, lugar dos prisioneiros que apenas conhecem simulacros da verdade.

O branco e o preto também são outro modo de compreender a mesma dicotomia. A luz branca traz dentro de si todas as cores reunidas, que podem ser distinguidas pelo prisma, e o preto é justamente a falta de luz. Luz e sombra são tão interdependentes como a oposição entre fundo e figura, regra básica da percepção, tal como elaboraram os psicólogos da Gestalt. O todo é mais do que a soma das partes, ele é percebido antes, é uma espécie de pano de fundo de onde emerge a figura. Mais do que uma parte isolada, a figura só existe em relação ao fundo, que é o que permite que ela apareça. Isso nos revela que a luz e a sombra não são completamente opostas, mas são subordinadas uma a outra. Eu só percebo a sombra por que há a luz. Tanto é assim que a sombra muda de acordo com a posição do raio de luz. A luz é esse fundo de onde surgem as sombras, ao mesmo tempo em que ela preenche o vazio da ausência de luz.

Entre a luz plena e a sombra, escuridão completa, há muitas nuanças que variam de acordo com espessura do meio em que ela se propaga, ou seja, entre a opacidade e a transparência há diversas variações. Os trabalhos de arte aqui presentes, cada um a sua maneira, podem ser aproximados a partir da compreensão do par luz e sombra.

José Resende recorre a um material translúcido, a parafina. Nele estão presentes os embates entre o visível e o invisível. Suspensa por fios, a obra revela as forças e a tensão que a sustenta. A parafina é um material que só pode ser moldado com calor e, assim que ela se solidifica, a energia se dissipa, a matéria perde a transparência e passa a dificultar a passagem da luz. O trabalho de Carlos Fajardo também é translúcido. Ele é composto por papel e dois pedaços de chumbo gasto presos nas bordas. A luz que atravessa o papel encontra no chumbo a barreira que a reflete. O tom acinzentado do metal opaco e o branco do papel são análogos da relação entre luz e sombra.
Arthur Luiz Piza faz uma colagem escura, opaca, mas que cria espaços vazios em seu interior. O espaço plano se desloca para o relevo tridimensional. Virtualidades surgem entre uma forma e outra. Os intervalos entre elas sustentam o volume. A luz se infiltra nesses espaços vagos e neles projeta sombras. Já o campo negro, espesso e opaco da gravura de Richard Serra parece absorver a luz ao redor. Como um buraco negro, a obra suga tudo que está diante dela. Trata-se da construção de um espaço curvo, preto, que salta de um fundo branco e liso. A falta da luz, uma espécie de escuridão cega, convive com o excesso de matéria.

O par de trabalhos de Cassio Michalany se diferencia um do outro por mínimas modificações nas distâncias entre as linhas negras verticais e as formas retangulares pretas. O sutil deslocamento transforma completamente a espacialidade de cada relevo. Sobre fundos brancos luminosos, a linha salta do plano e projeta sombras de acordo com o ângulo de origem do raio de luz. Já na escultura de Waltércio Caldas o jogo entre luz e sombra se dá entre um fundo horizontal branco e uma esfera negra que condensa o espaço e a ausência de luz. Duas estruturas reflexivas de metal, formada por retas paralelas e perpendiculares, insinuam e dão direção ao movimento da peça. Elas brincam com o visível e o invisível.

O invisível não é a negação do visível, ao contrário, é o que o sustenta por dentro, é o pano de fundo que permite a visão tanto quanto o silêncio possibilita o som. Assim como o impensado também não é apenas o não pensável, mas é o que pode ser pensado a partir do já pensado. Ou seja, o impensável é o que surge do excesso de sentidos que uma obra possui e o que nos permite articular trabalhos distintos como um conjunto. O invisível não é o campo da sombra nem o visível o da luz, mas há entre eles uma dependência mútua, luz e sombra são inseparáveis.

Cauê Alves