CARLA CHAIM

CARLA CHAIM

www.carlachaim.com

São Paulo, SP, 1983 - vive e trabalha em São Paulo

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NORTE

Olivia Ardui

Em Norte, Carla Chaim declina a disciplina do desenho, técnica que tem, continuamente, experimentado e tentado desafiar, expandir e desdobrar. Com este propósito, a artista vale-se de um dos materiais mais corriqueiros e universais empregados para o desenho, a saber, o grafite, que, em sua denominância, herdou a etimologia grega relativa ao ato de escrever ou desenhar. Se, de fato, a artista inscreve-se no campo das artes gráficas, pode-se dizer no entanto que desenha em negativo, na medida em que a sua intervenção é estruturada por um princípio de inversão tanto de algumas convenções dessa disciplina, quanto de um diálogo espelhado com o próprio espaço expositivo.

Primeiramente, apesar de até hoje a prática do desenho ser associada ao ato de marcar uma superfície com uma ferramenta, em geral um lápis, em Norte o grafite não é utilizado para tracejar linhas ou delinear formas, mas é reduzido a pó e espalhado pela sala segundo um retângulo que decalca as medidas do espaço. Assim, o grafite deixa de ser ferramenta para existir como pura matéria que ocupa e preenche uma superfiÌcie determinada.

Formalmente, a estrita geometria da densa extensão negra de grafite aparece como um contraponto no espaço que ocupa, a sala verde do Palácio Pombal. De fato, a sensibilidade rococó manifesta na profusão de coloridos ornamentos ondulantes que adornam as paredes e teto da sala, contrastam com a austeridade e a estética quase minimalista do retângulo de grafite que reveste o solo.

O desenho-instalação de Carla Chaim ainda destoa de maneira mais estrutural às normas que regem o desenho manifesto no espaço expositivo, na medida em que ele desvia também das linhas diretrizes que sustentam a sua planta arquitetônica. Pelo simples gesto de deslocar o retângulo de grafite do eixo da sala, a superfície negra parece destacar-se ainda mais do seu contexto e vem reforçar os contrastes já mencionados antes.

Assim, podemos dizer que Norte é uma obra particularmente auto-reflexiva no que diz respeito à prática do desenho na pesquisa de Carla Chaim: tanto pela própria experimentação do material emblemático das artes gráficas extravasando os limites de um suporte bidimensional, quanto pela confrontação direta com o edifício colonial do Palácio Pombal, repleto de reminiscências de uma tradição do ornamento e regido por normas em sua variante técnica do desenho de arquitetura.

Com esse jogo de contrastes, a intervenção de Carla Chaim desestabiliza a percepção, desnorteia a experiência que o espectador pode ter do espaço, convidando-o a consideraÌ-lo sobre um novo ângulo. Por sua vez, as polaridades visuais suscitadas pela instalação podem abrir horizontes para o entendimento de polaridades geográficas e históricas mais amplas.